Como é feita a avaliação neuropsicológica: etapas, testes e laudo

A avaliação neuropsicológica é feita em cinco etapas: entrevista inicial, sessões de testes, coleta de informações com escola ou outros profissionais, análise dos resultados e devolutiva com entrega do laudo. O processo costuma levar algumas semanas, e o número de sessões depende da idade de quem é avaliado e da pergunta que a avaliação precisa responder.
Se você ainda está decidindo se a avaliação faz sentido, comece por quem pode fazer avaliação neuropsicológica. Para saber como funciona no meu consultório, veja a página da avaliação neuropsicológica na Barra da Tijuca.
Resumo
- A avaliação tem cinco etapas: entrevista, testes, informações de outras fontes, análise e devolutiva com laudo.
- Os testes são padronizados e comparados com pessoas da mesma idade e escolaridade.
- O processo costuma levar algumas semanas; o número de sessões depende da idade e da pergunta.
- Dormir bem e levar exames e relatórios anteriores ajuda na avaliação.
Antes de tudo: a pergunta da avaliação
Toda avaliação começa com uma pergunta. Pode ser “por que meu filho não acompanha a turma na leitura?”, “esse adulto tem TDAH?” ou “a memória da minha mãe mudou de verdade?”. É essa pergunta que define quais funções serão examinadas, quais testes entram e quanto tempo o processo vai levar.
Por isso, quando há um encaminhamento do médico ou da escola, vale trazer o pedido e os relatórios. Eles ajudam a deixar a pergunta mais clara desde o início.
1. Entrevista inicial
O primeiro encontro é uma conversa longa, chamada de anamnese. Pergunto sobre a gestação e o desenvolvimento (nos casos de crianças), a saúde, os remédios em uso, a história escolar e profissional, a rotina, o sono e o que mudou nos últimos tempos.
Com crianças, essa conversa acontece com os pais ou responsáveis. Com adolescentes, costumo conversar com a família e com o próprio adolescente. Com adultos, a pessoa conta a própria história, e às vezes um familiar ajuda a completar o quadro.
2. Sessões de testes
Nas sessões seguintes, aplico testes e tarefas padronizados. Padronizado quer dizer que cada teste é aplicado sempre do mesmo jeito e tem resultados de referência de outras pessoas da mesma idade e escolaridade, o que permite comparar o desempenho de forma justa.
No Brasil, o psicólogo só pode usar testes psicológicos com parecer favorável no Satepsi, o sistema do Conselho Federal de Psicologia que avalia a qualidade desses instrumentos, e precisa seguir o manual de cada um (Resolução CFP nº 31/2022).
As funções examinadas variam com a pergunta. Em geral, entram a atenção, que permite manter o foco e filtrar distrações, e a memória para informações faladas e visuais. Também avalio a linguagem, incluindo leitura e escrita nas crianças, e as habilidades visuoespaciais, como copiar um desenho ou se orientar no espaço.
Completam o quadro o raciocínio, que mostra como a pessoa resolve problemas novos, e as funções executivas, ligadas a planejar, controlar impulsos e mudar de estratégia quando algo não dá certo.
As funções executivas merecem destaque porque aparecem em muitas queixas da escola e do trabalho. Elas reúnem o controle inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva, e são sensíveis ao estresse, à falta de sono e à solidão (Diamond, 2013).
Com crianças, muitas tarefas parecem jogos e quebra-cabeças. As sessões têm pausas e respeitam o cansaço. Com adultos, algumas tarefas são no papel, outras no computador, e também uso questionários sobre humor, ansiedade e comportamento, porque o estado emocional interfere no desempenho cognitivo.
3. Informações de outras fontes
Quando ajuda, peço que professores ou familiares respondam questionários sobre o comportamento no dia a dia. Também posso conversar com o médico, o fonoaudiólogo ou o terapeuta que acompanha o caso. Tudo isso acontece com a autorização da família ou do próprio paciente.
Essa visão de fora ajuda porque o consultório é um ambiente calmo e organizado. Uma criança pode se sair bem numa tarefa individual e ter dificuldade na sala de aula cheia, e essa diferença também é informação.
4. Análise dos resultados
Depois das sessões, corrijo os testes, comparo os resultados com as tabelas de referência e cruzo tudo com a história e com o que observei. Um resultado isolado diz pouco. A conclusão vem do padrão do conjunto, que mostra as funções preservadas, as que estão abaixo do esperado e como isso aparece na vida da pessoa.
É nessa etapa que a avaliação mostra o seu valor. Uma revisão de 56 estudos concluiu que a avaliação neuropsicológica melhora a precisão do diagnóstico e a previsão de como a pessoa vai funcionar no dia a dia, com evidência mais forte em comprometimento cognitivo leve, demências e traumatismo craniano, e evidência moderada em AVC, epilepsia, esclerose múltipla e TDAH (Donders, 2020).
5. Devolutiva e laudo
A devolutiva é o encontro em que explico os resultados. Mostro os pontos fortes e as dificuldades, respondo às dúvidas e passo as orientações práticas: o que pode mudar na escola ou no trabalho, quais tratamentos fazem sentido e que profissionais procurar.
O laudo é o documento escrito com a descrição do processo, os resultados e as conclusões. No Brasil, ele segue as regras do Conselho Federal de Psicologia para documentos psicológicos (Resolução CFP nº 6/2019). O médico usa o laudo para fechar o diagnóstico e definir o tratamento, e a escola usa para planejar adaptações.
Quanto tempo demora
Somando entrevista, testes, análise e devolutiva, o processo costuma levar algumas semanas. Crianças pequenas e pessoas que cansam com facilidade fazem sessões mais curtas, o que pode aumentar o número de encontros. Na primeira conversa, passo uma estimativa para o caso.
Como se preparar
- Durma bem na véspera das sessões de testes e venha alimentado.
- Traga óculos ou aparelho auditivo, se usar.
- Separe laudos, exames e relatórios anteriores, além de boletins e cadernos da escola, no caso de crianças.
- Faça uma lista dos remédios em uso, com as doses. Não suspenda nenhum por conta própria antes da avaliação; se houver dúvida, converse com o médico.
- Para crianças, conte que ela vai fazer atividades e jogos com a psicóloga. Evite falar em prova ou em teste de inteligência.
Visão da Marina
A etapa que mais faz diferença para a família costuma ser a devolutiva. É ali que os números viram explicações: por que a criança trava na leitura, por que o adulto perde o fio no meio de uma tarefa. Reservo tempo para isso e prefiro repetir uma explicação a deixar alguém sair com dúvida.
Também peço que ninguém chegue tentando ir bem nos testes. A avaliação funciona quando mostra o funcionamento real da pessoa, nos dias bons e nos difíceis.
Marina Vidal, psicóloga, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.
Perguntas frequentes
A avaliação neuropsicológica é feita online?
No meu consultório, a avaliação é feita só no formato presencial, porque os testes são aplicados pessoalmente, seguindo a padronização de cada manual.
Quantas sessões tem a avaliação neuropsicológica?
Varia com a idade, com a pergunta e com o ritmo de quem é avaliado. Informo a estimativa depois da entrevista inicial, quando já conheço o caso.
O resultado sai na hora?
Não. Depois das sessões de testes vem a etapa de correção e análise, e só então marco a devolutiva com a entrega do laudo.
Referências
- Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 6/2019. Regras para a elaboração de documentos escritos produzidos pela psicóloga e pelo psicólogo.
- Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 31/2022. Estabelece diretrizes para a realização de avaliação psicológica e regulamenta o Satepsi.
- Diamond A. Executive functions. Annual Review of Psychology, 2013. Acessado em 03/10/2026.
- Donders J. The incremental value of neuropsychological assessment: a critical review. Clinical Neuropsychologist, 2020. Acessado em 03/10/2026.
- Harvey PD. Clinical applications of neuropsychological assessment. Dialogues in Clinical Neuroscience, 2012. Acessado em 03/10/2026.
Foto de capa: Mikhail Nilov no Pexels